O TEATRO COMO A VERDADEIRA ARTE DO ENCONTRO - Ricardo Schöpke


Como dizia o polonês Jerzy Grotowski, um dos mais importantes e emblemáticos encenadores do século XX, a vida já é um grande teatro, e a cada dia vestimos inúmeras máscaras, assim o teatro é o lugar onde devemos tirar todas as nossas faces artificiais e simplesmente sermos plenamente. 
Foto: Isabelle Neri
Ou seja, o tablado é um lugar sagrado, - não no sentido religioso cristão -, onde o ator precisa se desnudar, e ser o mais verdadeiro possível. A cada ano que passa é visível o desenvolvimento técnico e artístico do PEQUENO GRANDE ENCONTRO DE TEATRO PARA AS CRIANÇAS DE TODAS AS IDADES, realizado anualmente em Curitiba. Idealizado e produzido pela importante Cia do Abração, o encontro reafirma, a cada uma de suas edições, as qualidades do pensamento artístico vigente na filosofia de trabalho da Cia. Uma Cia que pesquisa, experimenta e vive intensamente a arte teatral.

Apesar de possuir características de um festival tradicional - um calendário diário de apresentações teatrais em um mesmo teatro e horário determinado -, o encaminhamento do encontro jamais passa por perto de uma junção comercial de bons espetáculos, com o intuito de entreter apenas a sua platéia. Cada um dos movimentos realizados pelo grande encontro é coberto de afeto, amizade, reflexão, posicionamento artístico, critério e postura de vidas. Participar deste momento é sempre algo muito especial e único, onde a Cia do Abração nos mostra os seus grandes princípios. O crescimento do encontro está sempre voltado para a excelência artística, e com o compromisso na formação das crianças e do ser humano de todas as idades.

A Carroça de Vento. Foto: Isabelle Neri
O IIIº PEQUENO GRANDE ENCONTRO DE TEATRO PARA AS CRIANÇAS DE TODAS AS IDADES, dando continuidade a este posicionamento artístico-educaional-social agregou nesta edição conquistas preciosas: a apresentação dos espetáculos, neste ano, foram todas realizadas no histórico Teatro Guairá – um dos mais importantes palcos de nosso país, e precursor de grandes movimentos teatrais brasileiros. Não satisfeitos com esta grande conquista para o projeto, conseguiram também lotar o teatro durante todas as sessões, levando cerca de 15.000 crianças ao teatro, durante todo o encontro. E, diga-se de passagem, as crianças escolares apresentaram uma educação exemplar dentro da sala teatral, ajudadas também pelo prólogo inicial executado pela diretora da Cia do Abração Letícia Guimarães.

O primeiro espetáculo a se apresentar na terça-feira, dia 04/10 ás 15h, foi A Carroça de Vento do Teatro Filhos da Lua/Curitiba-PR, e este infelizmente eu não pude assistir, devido a um problema com o meu vôo no Rio de Janeiro, entretanto o trabalho certamente tem os seus méritos, visto que é produzido pelo Presidente da ABTB – Associação Brasileira de Teatro de Bonecos -, Renato Perré.  
Clarice Matou os Peixes. Foto: Isabelle Neri
O segundo a se apresentar na quarta-feira, dia 05/10 ás 15h, foi Clarice Matou os Peixes da Cia do Abração/Curitiba- PR. Clarice é a mais recente encenação da Cia, ou seja, acabou de ser aberta ao grande público para que fosse apreciada e apreendida. O Abração possui um método de trabalho bastante diferenciado, não preocupado com o resultado final imediato e sim com o processo do trabalho, e todo o crescimento que este terá ao longo de sua carreira, no intercâmbio entre os atores, os elementos técnicos e o público. Para eles o conceito que mais se adéqua é o de obra aberta, que aos poucos – ou aos muitos – as peças do quebra-cabeças vão se ajustando e criando composições harmônicas, que servem com precisão ao grande jogo de dados que é a própria vida. A vida como um jogo de erros, do acaso, das coincidências, dos encontros, dos desencontros. A vida que pulsa, que é energia pura. Dentro desse modus operandi devemos também – os críticos e o público - apurar e refinar o nosso olhar para trabalhos desenvolvidos nesta linha conceitual. A história de Clarice é uma livre inspiração nas obras A Mulher que Matou os peixes e A Vida íntima de Laura de Clarice Lispector, entre várias outras influências que acompanham a Cia nestes anos de muita labuta. Devido ao fato que este é o mais recente projeto da Cia, ele ainda está azeitando as suas engrenagens e testando os novos jogos propostos pelo processo de trabalho: atores que nunca trabalharam juntos, um ator de outra nacionalidade, uma dramaturgia mais cartesiana, uma interpretação frontal e novos códigos experimentados. O peculiar nisso tudo é que para a platéia isso não representa uma quebra na qualidade, e sim são questões mais percebidas por um público especializado, como nós artistas e críticos, mas para o público fica um gostinho de estranhamento no ar, o que para Brecht – o encenador alemão Bertold Brecht, o mais importante de toda a história do teatro mundial -, isso representa algo de muito importante na concepção cênica de uma obra teatral.  Ressaltado isso, é preciso apenas que a Cia reveja na concepção do espetáculo o setor de iluminação, que apresenta erros técnicos graves em sua criação, chegando ao ponto de termos três refletores elipsoidais que não iluminam nada na estante onde deveríamos ver aquários e peixes.  Com certeza o tempo irá dar o(s) formato(s) ideal (is) buscado(s) pela tão competente Cia. 
Um Mundo Debaixo do Meu Chapéu. Foto: Isabelle Neri
O terceiro trabalho apresentado na quinta-feira, dia 06/10 ás 10h e 15h, foi Um Mundo Debaixo do Meu Chapéu da mesma Cia do Abração, este trabalho já apresenta resultados certamente bem diferentes do anterior. Explorando o preto e branco, o claro e o escuro, a estética do cinema mudo – gags, pantomimas, mímicas, bufonaria, comédia Dell`arte...-, e fazendo uma merecida homenagem ao grande mestre Charles Chaplin, através dos filmes Luzes da Ribalta, O Grande Ditador, Tempos Modernos, entre outros. Neste projeto, já amadurecido pelo tempo e pelo seu jogo cênico mais harmônico, podemos ver com minúcias o refinamento e a poesia no trabalho da Cia. Os três atores que vivem três contraregras fazem um jogo muito rico, onde cada um deles é “escada” de diversos números cinematográficos. Sem falar na ambientação que nos leva a todo o tempo para um set da sétima arte.
A Fabulosa Redonda Flor. Foto: Isabelle Neri
O quarto trabalho apresentado na sexta-feira, dia 07/10 ás 15h, foi A Fabulosa Redonda Flor da Cia Yepocá/Belo Horizonte- MG, que possui um delicado trabalho de confecção de bonecos em papel e origami, mas esbarra em uma manipulação inconsistente, e com alguns conceitos divergentes na encenação total. O espetáculo tem uma trama muito interessante sobre a diferença de ser redondo em um mundo quadrado. Para contar essa história, a primeira parte do espetáculo é bastante satisfatória, ainda que exista também alguns problemas graves com a atuação da atriz/manipuladora. Ela exibe uma atuação bastante exagerada em gestos, tom de voz, e princípios antiquados do teatro para a infância e juventude; acontecendo o mesmo em alguns momentos da peça, com uma linguagem tatibitati, e quando é solicitada a participação da criança nas fatídicas perguntas: foi por ali? Ou foi por aqui? Por ali ou por aqui? Apesar disso, é possível observar a seriedade e capricho da produção. Com ajustes o espetáculo tem tudo para ser bom.

El Titiritero. Foto: Isabelle Neri
O quinto trabalho apresentado no sábado, dia 08/10 ás 16h, foi El Titiritero, uma das mais gratas surpresas do IIIº encontro. Idealizado pela Bululu Thèatre/Buenos Aires- Argentina apresentou para o público uma singela e ao mesmo tempo refinada e sofisticada história de animação, uma encenação onde podíamos mergulhar na alma do ator e de suas criações. Utilizando uma linguagem de metateatro, foi possível termos aceso a uma grande parte dos bastidores de um teatro de títeres, desde quando o boneco é apenas um pedaço de madeira, um objeto, um ser inanimado até que seja animado, e se transforme diante de nossos olhos em diversos seres com personalidades diversas e muitas idiossincrasias.  Outro ponto alto da apresentação foi que a mesa foi feita toda em espanhol/castelhano, e isso não impediu que as 500 crianças presentes na platéia entendessem tudo o que foi realizado em cena. Foi realmente um momento mágico e hipnótico. Um verdadeiro encontro do artista com o seu público. O espetáculo foi pleno, como diz Peter Brook; o teatro é a arte do encontro, e foi possível comprovarmos isso com o El Titiritero.

Um Rio que Vem de Longe. Foto: Isabelle Neri
O sexto e último trabalho apresentado no domingo, dia 09/10 ás 16h, foi Um Rio que Vem de Longe da Cia Vento Forte- SP. Um espetáculo que traz a assinatura de um dos artistas mais importantes de nosso país na área da infância e juventude: Ilo Krugli. Ilo foi o responsável em revolucionar o teatro infantil brasileiro com a antológica montagem de Histórias de Lenços e Ventos em 1974, no MAM/ RJ - Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, onde permaneceu um ano em cartaz. Um Rio que Vem de Longe apresenta em sua encenação todos os conceitos trabalhados pelo Vento Forte nestes 37 anos de estrada: panos e lenços para contar a história, significação e re-significação, canto, música ao vivo, artes plásticas, poesia, teatro mambembe e irreverência.

Tenho certeza que no próximo ano, o IVº encontro será ainda mais promissor, e certamente irá apresentar grandes evoluções no panorama teatral da cidade de Curitiba. É um verdadeiro privilégio para o Paraná sediar a Cia do Abração, e ter um pequeno grande encontro tão importante e fundamental como esse. Que venham muitos encontros ainda, durante muitos anos.  Afinal é ou não é o teatro, a verdadeira arte do encontro?

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