SEMINÁRIO AVALIATIVO

Este texto se propõe a descrever a realização do Projeto de Investigação de Teatro para Crianças de Todas as Idades, desenvolvido pelo Grupo de Pesquisas Cênicas da Cia. do Abração durante o ano de 2009, a partir da análise dos conteúdos e dos resultados obtidos através da realização das oficinas de aprimoramento técnico propostas neste projeto, traçando um paralelo entre estes resultados, a revisitação das obras de repertório de teatro dirigido à criança e a solidificação do grupo de teatro de grupo desta Cia.

Em nosso grupo, buscamos ser “artífices de si mesmos” – Segundo a definição de Nagib Anderaos Neto no texto A Arte de Sonhar, “Somos diariamente instigados a seguir a fascinante busca pela arte de criar a si mesmo, tarefa para toda uma vida, nos transformando em autores e atores de nossos próprios dias, donos de nossos destinos e artífices do futuro, dando um salto mortal sobre tudo que tem estreitado nossa visão e endurecido o nosso coração”. Nossos espetáculos amadurecem enquanto buscamos um homem/novo melhor. Neste árduo e prazeroso caminho vamos construindo nossa história de grupo de teatro de grupo, e compreendendo o dizer do poeta: “o caminho se faz ao caminhar”. Fazer teatro de grupo mantendo um repertório de espetáculos dirigidos a crianças de todas as idades com dramaturgia própria, significa remar contra a maré de produções rápidas e de apelo comercial que surgem diariamente. Resistir é preciso e assim, o Projeto de Investigação de Teatro para Crianças, realizado durante o ano de 2009, subsidiado pelo Fundo Municipal de Cultura através do edital Pesquisa de Linguagem Teatral, nos deu a possibilidade de fazer o que faríamos de qualquer forma, porém com mais dignidade e principalmente, ampliando ações, viabilizando a vinda de profissionais que puderam, ao longo deste ano, agregar conhecimentos e experiências ao nosso grupo e aos interessados em compartir desta pesquisa, através de inesquecíveis vivências, ajudando a fortalecer nossa consciência de ser e estar em grupo.

Nossa metodologia de trabalho inclui oficinas de diversas práticas, envolvendo múltiplas áreas das artes e do conhecimento, que procurarei abaixo descrever, traçando um paralelo entre seus objetivos e metas e seus resultados para com o nosso grupo.

• Nas oficinas de técnicas de lutas baseadas na arte marcial Ninpo Taijutsu, em espada medieval e lutas desarmadas, ministradas pelo osteopata, cantor e ator inglês Malcolm Clark são desenvolvidas habilidades para o combate em cena, proporcionando ao ator, não só o aprendizado de técnicas de lutas específicas, mas mobilizar um tipo de prontidão energética. Investigar esse estado de prontidão muito nos interessa, pois sendo vivo e potente, é um estado energético que dialoga com a criança gerando, a partir dessa cumplicidade, uma comunicação mais efetiva.
Outras habilidades são desenvolvidas como o raciocínio rápido, tanto para a defesa como para o ataque, a capacidade de memorizar uma seqüência, já que todos os golpes são coreografados, ficando a cargo das diferenças de dinâmica, o ritmo vivo e próprio da luta, o domínio do movimento com segurança, afinal, o que se pretende é fazer parecer uma luta real, porém sem riscos para ambos os lutadores.
Estas são contribuições pontuais para a formação deste ator que queremos, seja mais habilidoso, expandindo suas potencialidades expressivas.

• A oficina de espaço, corpo e som, ministrada pela bailarina, atriz, yogue e percussionista Eliane Campelli, desenvolvida dentro da Cia. do Abração desde 2004, tem ajudado a desenvolver em cada praticante, principalmente, autonomia e entendimento individual e coletivo. Quando a ministrante propõe, de forma libertária, que cada um seja honesto com o seu próprio entendimento em relação às instruções, dadas uma única vez, sobre determinado exercício, sejam assimiladas sem que haja necessidade de se fixar o certo ou o errado, várias interpretações surgem e é o grupo quem escolhe qual o caminho a ser tomado em relação a cada etapa, construindo assim, o “certo” para aquele momento. Este exercício de autonomia tem sido muito importante para a formação de nossos atores, afinal, trabalhamos com criação coletiva onde todos tem um papel imprescindível para a construção de novas dramaturgias. Numa sociedade onde somos cada vez mais bombardeados pelo consumo desenfreado de produtos e idéias descartáveis, impostas por um mercado exigente a consumidores perdidos e despreparados, a prática desta oficina serve como antídoto a falta de perspectiva de mudança e também à falta de personalidade, tão comuns nos dias de hoje.

• Oficina de mímica contemporânea ministrada pela atriz, diretora e fundadora da Cia do Abração Letícia Guimarães: Partindo do estudo do livro “A Arte Secreta do Ator” de Eugênio Barba e Nicola Savarese, a ministrante propõe traçar paralelos que aos poucos vão fazendo sentido, a partir de experimentos corporais vivenciados a cada oficina. Embalados sobre conceitos como “A dança das oposições, o corpo fictício, o corpo decidido” entre outros, nossos pesquisadores vão se dando conta da riqueza existente no domínio de técnicas tão decodificadas como a mímica e sua potencialidade para revelar e construir um corpo extra cotidiano.
Nesta prática minuciosa, são propostos exercícios de dissociação de partes do corpo buscando o domínio técnico do movimento em prol da construção lúdica de histórias contadas apenas com o uso do corpo. Através da mímica corremos, andamos, subimos longas escadas, realizamos uma série de ações e movimentos utilizando apenas o corpo. O espaço, aparentemente vazio, ganha volume e forma através da precisão dos movimentos. Assim, as histórias são narradas sem o uso de palavras nem objetos. Essa brincadeira imagética cria, junto ao espectador, uma relação viva onde a mágica causada pela ilusão é a tônica. A mímica é uma técnica frequentemente utilizada em nossos espetáculos, uma importante ferramenta para a construção de uma dramaturgia brincante que dialogue diretamente com a sensibilidade da criança. Com esta prática, aprimoramos a execução de movimentos mímicos já existentes em nossos espetáculos assim como adquirimos mais inspiração para a criação de detalhes que enriquecem nossa dramaturgia através da ilusão brincante sugerida pela mímica.

• Oficina de Animação de Objetos ministrada pelo ator e diretor Renato Perré, fundador do Grupo de Teatro Filhos da Lua: Nesta oficina tivemos a oportunidade de vivenciar técnicas de construção de bonecos a partir de objetos do cotidiano e posteriormente, criar histórias narradas com estes bonecos. Várias questões foram levantadas a respeito da relação humilde e generosa entre ator/objeto/boneco, onde, sobretudo a beleza da entrega entre animador/animado, encantou a todos com a possibilidade de novos personagens contarem novas histórias. O contato direto com este mestre paranaense da animação de objetos, foi tido pelo nosso grupo, como um privilégio. Poder usufruir dos conhecimentos adquiridos por ele, ao longo de sua trajetória, foi sem dúvida, estimulante para nossos jovens atores. A manipulação de objetos é também uma das técnicas muito utilizadas em nossos espetáculos e o aproveitamento desta oficina está visível na busca incansável de cada ator por uma animação mais eficiente, humana, generosa, lúdica e brincante, estabelecendo assim, uma relação cada vez mais pulsante com nossa platéia.

• Oficina de linguagens corporais ministrada pela atriz, bailarina e fundadora da Cia. do Abração Fabiana Ferreira: Várias técnicas que compõe o repertório da dança são utilizadas nesta oficina, desde o balé clássico, a dança moderna, a dança criativa, passando também por técnicas de consciência corporal como a de Alexander e a de Bartenieff, na busca pela construção de um corpo disponível para contar histórias em movimento. Sobretudo para o movimento realizado em harmonia com a música. Em nossos espetáculos para crianças de todas as idades, buscamos trabalhar intensamente com a dramaturgia coreográfica, muita vezes ficando somente a cargo dela, a narrativa de parte da história. Assim sendo, nosso preparo para a dança vem se desenvolvendo gradativamente, tanto para a execução de movimentos pré estabelecidos como para a criação de um repertório próprio de cada ator. A relação música e movimento, o que para nós caracteriza a dança em si, também vem sendo investigada, proporcionando a todos, uma crescente desenvoltura do corpo dançante para acompanhar o ritmo e a melodia proposto pela música.

• Oficina de musicalização ministrada pelo arte educador e músico Alysson Siqueira: Nesta oficina são desenvolvidas as capacidades rítmicas, harmônicas e melódicas relacionadas diretamente a música. Os atores são instigados a utilização de instrumentos tanto através da escuta e reprodução de sons com o instrumento escolhido, bem como através da leitura de partituras musicais. O desenvolvimento das potencialidades da voz falada e cantada, buscando investigar novas formas de sua utilização para pontuar uma determinada idéia a ser transmitida é recorrente. Nesta busca, cada um pode se deparar com inúmeras descobertas onde o exercício do canto ou mesmo a pesquisa do uso de novos registros vocais acabam desencadeando em um texto mais melódico e brincante. A prática desta oficina está diretamente relacionada à oficina de espaço, corpo e som, no que diz respeito à produção sonora. Ambas se inter-relacionam, uma fornecendo material à outra e o artista que usufrui das duas, estabelece uma ponte de conhecimentos e possibilidades que gradativamente são agregadas à dramaturgia musical de nossos espetáculos.
Outra frente de pesquisa da Cia. do Abração diretamente relacionada a esta oficina, diz respeito à execução de sonoplastia ao vivo, seja através da utilização de objetos do cotidiano como instrumentos de produção sonora, seja na criação e construção de novos instrumentos musicais. Ambas as possibilidades são amplamente exploradas em nossos espetáculos dirigidos ao público de todas as idades, sempre buscando uma maneira criativa e lúdica de contar histórias que se aproxime ao máximo do universo da criança.

• Oficina de capoeira angola ministrada pelo capoeirista, artista plástico e performer Lauro Borges: Buscamos trabalhar com esta oficina com o intuito de desenvolver em nossos atores, a acrobacia brasileira própria do jogo proposto pela capoeira angola onde características genuinamente afro-brasileiras, são expressas a partir da mistura entre luta, dança, cultura popular e música. Através desta prática desenvolvemos nossa capacidade de utilização do repertório de movimentos e gestos propícios da capoeira angola, articulando pensamentos e idéias, junta às escolhas que fazemos durante um determinado jogo com um determinado parceiro. Cada jogo é único e nele se estabelece uma relação dinâmica e viva, impossível de ser reproduzida de forma mecânica o que contribui imensamente no trabalho do artista cênico, afinal, não será exatamente este o jogo da contracena entre os atores? Outra característica bastante desenvolvida através da prática da capoeira angola está relacionada à malemolência ou jogo de cintura. Para nós atores esta característica está absolutamente relacionada ao jogo do improviso, base fundamental para a construção de uma dramaturgia coletiva como a nossa. A capoeira angola tem nos ensinado sobre a “malandragem” do capoeirista e sua facilidade para fazer opções e num mesmo instante, fazer uma outra diferente e mais outra, surpreendendo seu parceiro que deverá ter a mesma habilidade desenvolvida para poder estabelecer a dinâmica proposta pelo jogo.
Atualmente estamos trabalhando na criação de uma nova dramaturgia dirigida à infância denominada “Sobrevoar” e os recursos apreendidos através da capoeira angola estão sendo amplamente investigados. Tais recursos também podem ser percebidos em muitos dos nossos espetáculos, onde movimentos acrobáticos são experimentados e com o suporte desta técnica, agora podem ser melhor executados.

Grupos de estudos coordenados pela diretora da Cia. do Abração Letícia Guimarães e pelo antropólogo, ator e cineasta Blas Torres: este espaço dedicado ao desenvolvimento dos processos intelectivos através de estudos teóricos, tem sido de extrema importância. Com estes estudos estamos desenvolvendo o pensamento crítico, o discurso desencadeador de posicionamentos éticos, estéticos e filosóficos. Hoje nosso grupo entende mais claramente as suas escolhas, está mais preparado para ouvir críticas sobre o seu trabalho e se posicionar diante delas. Pode separar o que interessa do que não interessa, propiciando, através da crítica, uma revisitação à obra artística. Ao mesmo tempo, consegue não abrir mão do que acredita ser genuíno e por isso mesmo fundamental para a obra, independente do pensamento diverso do olhar externo. Hoje podemos ler um texto e contextualizando-o para o nosso universo, traçar paralelos com o que estamos fazendo. Assistimos a espetáculos de teatro ou dança, filmes, ou exposições de artes plásticas procurando, através da análise crítica sobre estas obras, agregar algo de novo ao nosso trabalho ou reforçar o que queremos e acreditamos e que se difere ou não do conteúdo assistido. Assim, a partir do grupo de estudos, fazemos nossa “ginástica cerebral” e dela, extraímos também mais convicção para afirmarmos o nosso discurso de arte educador.

• Oficina de criação dramatúrgica com o ator, diretor e dramaturgo Ilo Krugli, fundador do grupo de teatro Vento Forte de São Paulo: Ilo Iniciou esta oficina indagando os participantes com a seguinte pergunta? Qual a sua primeira vez? Todos se entreolharam sem entender o que ele quis dizer e se perguntaram: mas primeira vez de que? Ele por sua vez, percebendo a dúvida estampada nos rostos de cada um, prontamente respondeu: A primeira vez de qualquer coisa, a lembrança de algo que tenha marcado nossa memória e que nos faça recordar o frescor, o frisson que normalmente acompanha as primeiras vezes. Depois ele segue nos questionando: quais foram as nossas primeiras histórias, as primeiras histórias que inventamos? Todos muito engajados em achar respostas, vão justificando os porquês de suas histórias preocupados em analisar e conceituar, sem se ater ao essencial: apenas relatar sua história sem nenhum comentário ou explicação.
Acompanhando esta oficina, fiquei com a sensação de que, em sua maioria, os participantes não conseguiram entender a profundidade das pequenas coisas que o Ilo, com sua sensibilidade nata e experiente, tentava desabrochar: A singeleza da essência, da gênese, da origem das coisas, e ao mesmo tempo, sua profunda potência em revelar o belo que é o particular de cada um.
Diferente da oficina da Fátima Ortiz e do Renato Perré onde ambas propuseram um trabalho com maior ênfase na carpintaria da escritura do texto dramático, o Ilo voltou o nosso olhar para a fonte de onde nascem nossas histórias que somos nós mesmos, nossa capacidade brincante de embarcar no primeiro impulso, na primeira imagem, nossa capacidade de acreditar nessas primeiras idéias e perseverando nelas, avançar.
Assim as oficinas de dramaturgia propostas neste projeto, cumpriram com eficiência o seu propósito, propiciando ferramentas de diferentes níveis, camadas e universos aos nossos atores e grupos interessados, para a construção de novas dramaturgias que dialoguem com a criança.
Para mim em particular, a convivência com esta “velha criança” Ilo krugli foi riquíssima. Viajar na profundidade daqueles límpidos olhos azuis, sempre prontos a nos fazer navegar por singelas histórias, e por isso mesmo, repletas de humanidade, foi uma experiência impar. Pude degustar cada segundo ao lado do Ilo sorvendo gota a gota a experiência viva do encontro verdadeiro com um dos artistas mais humanos, belos e profundamente complexos que pude ter o privilégio de conhecer.

Estas práticas exercitadas ao longo deste ano, trouxeram um amadurecimento calcado em técnicas diariamente absorvidas, onde cada um de nós pode, a seu modo, tirar proveito deste processo e ir delicadamente tecendo um pouco mais sua trama corporal, vocal, plástica, musical, espacial, interna e externa, espiritual e intelectiva na busca de um ator/humano melhor. Somos artistas compromissados com um ideal, trabalhamos reflexivamente reforçando ideologias, filosofias e afetividades.

Todo este trabalho reflete expressamente em nossos espetáculos, em nossas vidas em nosso grupo. Compartilhar de um mesmo espaço sagrado, diariamente, 12 horas por dia, tem sido uma experiência desencadeadora em cada um de nós, de revisões de conceitos, valores, formas e conteúdos constantes, levando um a um, e consequentemente o grupo todo, a estarem sempre avaliando cada parte do processo. O todo pode assim, dinamicamente vivo, ser reinventado todo dia dando suporte a nossa necessidade de ânimo e estímulo para continuar seguindo. Atenção redobrada para perceber se o caminho trilhado tem sido verdadeiramente o escolhido, evitando assim, desagradáveis enganos cometidos de forma inconsciente.

A direção artística pode, nos ensaios ou mesmo na coordenação junto aos ministrantes de cada oficina, experimentar uma gama de possibilidades oferecidas por um ator/criador mais preparado técnica/espiritual e intelectualmente, apontando assim, para o enriquecimento de uma dramaturgia coletiva que carece, muitas vezes, ser revista e aprofundada.

A dramaturgia foi um tema recorrente neste ano de trabalho e nossa opção por uma dramaturgia própria e coletiva, exige de todos nós, muita flexibilidade, paciência, generosidade e persistência. As incertezas geram muitas dúvidas que por sua vez, geram muita insegurança. Na construção de uma dramaturgia coletiva, aos poucos, os pedacinhos vão se juntando e depois de muito trabalho pensado e repensado, improvisado e re-improvisado, com idéias boas outras nem tanto, espremendo daqui e dali, nasce uma nova história, a nossa maneira de contar histórias, partindo de premissas básicas como o respeito pela inteligência da criança, procurando estimular sua sensibilidade e acreditando em sua capacidade inata para o amor. Acreditamos sim no olhar amoroso da criança, no olhar de quem vê tudo como se fosse a primeira vez e assim, alimenta nosso espírito sonhador e brincante de artista. Para nós, a inteligência da criança não está atrelada a sua idade cronológica e sim a sua capacidade amorosa e curiosa de sorver o mundo que a rodeia. Essa capacidade de perceber o mundo através do amor é um estímulo constante para o aprofundamento filosófico e estético que buscamos para a construção de histórias que nos ajudem a compreender, cada vez mais, quem somos e qual o sentido de estarmos vivos.

Investigamos nosso repertório com o propósito de aclarar nossa dramaturgia recortada e não linear, buscando uma melhor fruição entre espetáculo e platéia. Pra isso, o livro “O Poder do Mito” de Joseph Campbell, serviu de ponto de partida onde muitas discussões em nosso grupo de estudos, suscitaram perguntas e reflexões desencadeadoras de novas perguntas. Este amadurecimento pode ser percebido, em última instância, em nossos espetáculos. Um reflexo direto onde tudo o que foi visto, estudado e apreendido, pode ser colocado em cena através da arte viva que é o teatro, especialmente o teatro feito por um grupo de teatro de grupo. Temos sim o privilégio de trabalhar com repertório e assim, crescer ano após ano. Isso não tem preço, afinal, qual é o valor de uma obra de arte? Quem pode dizer o quanto vale a vida de cada artista contida ali, em cada filigrana da composição artística coletiva?

A construção de um grupo é uma tarefa árdua que exige de todos nós, uma dose de renúncias a prazeres frívolos que a vida em sociedade – fora do nosso grupo, teima em nos impor. Posto assim parece que estamos sofrendo com nossas escolhas e de certa forma estamos sim, pagando um preço alto para estarmos em grupo, solidariamente remando contra a maré absurda de consumo onde espetáculos são produzidos a toque de caixa sem a menor preocupação com o sentido da obra de arte, senão pelo lucro. Onde atores/artistas todos os dias deixam morrer o melhor de si, comprados pela roupa da moda ou pelo último modelo de automóvel. Pagamos o preço todos os dias com nosso sangue, suor e lágrimas por estarmos em grupo, porém, absolutamente íntegros com nossas escolhas e convicções e por isso tudo, felizes em realizar o que queremos e acreditamos.

Estar em grupo requer outra dose de companheirismo, afinal, compartilhamos todas as esferas de nossas vidas. Tudo e todos fazem parte de uma mesma história, matéria prima donde retiramos nossas idéias artísticas. Sem distinção entre privado e público, seguimos 100% disponíveis para este fazer teatral específico sem nos preocupar com horários, prazos e preços, pensamentos tão comuns ao homem contemporâneo. Nossa obra de arte torna-se o fluxo e o re-fluxo de nossas vidas, uma retro alimenta a outra. Nutrição constante entre vida e arte onde não podemos e nem queremos encontrar o limiar entre uma e outra. Somos, como já nos auto representamos através da inspiração dos personagens de nosso espetáculo “O Trenzinho do Caipira”, artistas da sobrevivência, resistindo, apaixonados pelo que fazemos, acreditando imensamente na capacidade do homem de se reinventar, contribuindo, através de nossa escolha artística, para a formação de um homem mais humano.

Enfim somos um grupo de teatro de grupo, vivemos única e exclusivamente de nossa arte, nos dedicamos totalmente a ela. Dividimos todas as tarefas, artísticas e administrativas, sustentamos uma sede que abriga, além de nosso grupo, e toda a sua produção, uma escola. Somos uma família. Somos uma religião. Aprendemos a cada dia a necessidade de sermos honestos em relação ao que pensamos e escolhemos, procurando colocar em prática, o nosso discurso. E assim seguimos...

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