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Pontos de partida para mais uma obra para crianças da Cia. do Abração

Quais são os nossos sonhos que contrapõe a realidade? Sonhos que transformam a realidade? O que queremos pra criança de hoje? A criança de hoje tem espaço pra sonhar? O que impede a criança de sonhar? O que impede a criança de acreditar na capacidade transformadora dos sonhos? Por que ao crescermos damos adeus a nossa capacidade imaginativa? Porque durante a noite, enquanto dormimos, a criança reprimida em cada um de nós, vem cobrar suas divagações através de nossos sonhos? Podemos concretizar os nossos sonhos? A criança de hoje tem muitas ou poucas oportunidades para brincar?
Com estas indagações, iniciamos o processo de pesquisa do projeto SOBREVOAR, desejando que elas possam ampliar nossa capacidade de nos recriar, de nos conhecer e superar nossas imperfeições na busca de evoluir, transformando-nos num ser humano melhor. Este é sem dúvida um sonho que queremos realizar: ser artista. Segundo Nagib Anderaos Neto no texto A Arte de Sonhar, ser artista é ser “artífice de si mesmo”, a arte de criar a si mesmo através do reconhecimento dos seus defeitos e imperfeições, deixando para traz velhos padrões de comportamento, arte das mais difíceis, recriando-se, tarefa para toda uma vida onde o primeiro aprendizado consiste em “querer melhorar, aprender e evoluir”. “Inspirados na obra maior que é a própria criação, o ser humano poderá transformar- se no autor e ator de seus próprios dias, dono de seu destino e artífice do futuro, dando um salto mortal sobre tudo que tem estreitado sua visão e endurecido o seu coração”.
Em nosso grupo de estudos vimos que a criança de hoje pouco inventa, já recebe seus brinquedos prontos e acabados restando-lhe poucas oportunidades do exercício tão prazeroso da infância que é inventar. Através da brincadeira a criança exercita sua capacidade de contextualização.
Já o livro Seis Tombos e um Pulinho de Claudio Fragata onde o autor nos conta a história de Santos Dumont baseado nos tombos do nosso herói até chegar ao seu grande invento, nos aponta que o tombo faz parte do processo de aprendizagem e a queda pode gerar impulso para um novo salto e se o salto anterior foi alto, o impacto com o solo será a projeção para um salto ainda maior. Esta é uma possibilidade fantástica de aprendizagem, o erro como parte natural deste processo amplificando o desejo da concretização. Então nos perguntamos: quais foram e são nossos tombos para um pulinho?
Inspirados na grandeza e pureza de Santos Dumont entendemos que para concretizarmos nossos sonhos é preciso resiliência: misto de resignação e persistência. O aprimoramento em prol da concretização dos sonhos versos a simplicidade de sonhar. O pensamento arte educativo contido no conceito de resiliência certamente norteará esta pesquisa cênica, procurando levar à criança de todas as idades, algo que a impulsione na concretização de seus sonhos. Oxalá possamos, com o nosso singelo Sobrevoar, tocar esses pequenos grandes corações, ajudando a construir um ser humano melhor! Portanto desejamos construir e inventar muitas maneiras de brincar e voar, enfrentando nossos medos e superando obstáculos.


AS PRIMEIRAS CENAS:

Nosso grupo amadurece. O belo acontecendo diante de nossos olhos, ali, ao vivo e em cores. Ah! doce magia do teatro! Amo fazer teatro, essa forma viva de contar histórias, alimentada por carne, osso, idéias, ideais e o frescor do instante. Nosso grupo cresce a olhos vistos e meus olhos de arte educadora se emocionam ao acompanhar esse caminhar que se faz pouco a pouco, com muito suor e dedicação e também muitas renuncias, dores e amores. Tudo isso traz ao nosso grupo harmonia já nos primeiros improvisos, harmonia calcada no confiança que só se faz verdadeiramente em grupo. A beleza e a verdade caminhando juntas no processo de criação.

Nossa metodologia de trabalho, como sempre libertária, graças a Deus, agora propõe que cada ator conduza a criação de uma cena, baseada em todo o material estudado e sugerido pela direção, nos improvisos dos primeiros encontros marcados por uma atmosfera parecida ao que cada um de nos imagina como céu, propiciando muitos vôos e sonhos, em forma de danças, músicas e poemas. Aos nossos atores/diretores foi pedido também que estas cenas sejam criadas já com o máximo de informação que o grupo possa sugerir como proposta estética, figurinos, cenários, sonoplastia, coreografia . Aos poucos estas cenas vão encorpando nosso entendimento sobre o que temos a dizer à criança através das invenções de Santos Dumont, quem são estes personagens, quais são os seus conflitos e que ambiente eles habitam. A direção vai ajudando a definir todos estes caminhos a partir de tudo o que está sendo levantado, instigando os diretores/atores com freqüentes questionamentos e apontamentos sobre o que foi criado, suas relações com o material até então pesquisado e o que de novo surge a cada dia de trabalho. Criação coletiva ou concriação, termo freqüentemente utilizado na atual cena teatral contemporânea, levada a sério por um grupo que trabalha seis dias por semana, oito horas por dia, de forma absolutamente comprometida, buscando trazer a tona um artista consciente e consistente em seu repertório de gestos, pensamentos e posicionamentos diante do mundo que o cerca. Esse exercício de autonomia traz a todos a noção de que se existe algo a ser feito, é necessário que cada um o faça por si. Ninguém pode fazer nada no lugar do outro, todos precisam se colocar intelectual e artisticamente. Essa é a base que estamos construindo para o nosso grupo. E assim crescemos a cada dia, individualmente e em grupo.

Nossa história engatinha enquanto cada um de nós concentra toda a sua energia em prol da construção coletiva de mais uma obra teatral para a criança de todas as idades.

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