Crianças no Teatro por Robson Rosseto

O teatro contemporâneo para crianças busca resgatar o prazer para quem faz e para que vê, sentimento que ficou à margem em tempo recente. Com ênfase, a perpetuação de temas ditos pedagógicos e moralizantes foi uma tônica no campo do teatro para criança. Ainda é recorrente escutar afirmações reiterando a importância dos temas/ recortes voltados para as crianças, principalmente no campo da educação. Esse ranço esteve e ainda está muito vinculado com estereótipos culturais e a predominância do bem e mau, trazido com destaque para os personagens. Esta idéia parece que foi o fio condutor das encenações voltadas para o público de pessoas com pouca idade durante muito tempo, e ainda vigora em algumas realidades. Neste sentido, cabe uma reflexão sobre o lugar da criança no meio social e a cultura que permeia o seu entorno. A invenção da infância posta pela sociedade moderna, especialmente no âmbito educacional, estabeleceu regras para o teatro na escola, com único objetivo de ensinar por meio do teatro: conteúdos, formas de pensar, posturas, regras e normas, e etc. Não se procurava trazer uma reflexão sobre as questões, mas educar em prol da moral e dos bons costumes. É óbvio que o ensinar sempre será partícipe da relação palco-platéia, mas, atualmente, com um caráter diferente, não instrumental, sim vivência significativa.

Outra pedra no sapato, são os grupos ‘caça-níquel’, com espetáculos voltados para crianças e escolas; estão por aí, concorrendo por um espaço no mercado – torço para que este espaço se reduza cada vez mais – para eles. Do contrário, torço para que cada vez mais o espaço se abra para os grupos que estão intrinsecamente ligados com a pesquisa sobre o teatro para crianças, não há outra forma de alcançar qualidade!

Hoje, o impulso é outro para nortear a feitura de uma produção teatral direcionada para crianças, especificamente para as pessoas que estudam as formas teatrais para este público. Não se trata apenas de intelectualizar a obra, mas certamente de torná-la prazerosa com refinamento estético. Não há tema restrito para as crianças, o caminho é o como mostrar, e posteriormente captar a recepção do espectador para uma posterior análise sobre os efeitos provocados pela cena.

Fui assistir o espetáculo da Cia. do Abração “Estórias Brincantes de Muitos Paizinhos” no Pequeno Grande Encontro de Teatro para Crianças de todas as idades, no teatro da Caixa. Antes de comentar sobre a peça, ressalto e intensifico que iniciativas como esta é sempre louvável e significativo, pois somente através de movimentos culturais é que o teatro irá se perpetuar socialmente como algo a ser ‘consumido’ e potencialmente fazer ressonâncias para a vida e construção identitária da pessoa, no caso aqui, da criança.

O espetáculo é muito dinâmico, colorido e traz muitas imagens impactantes e surpreendentes – o visual prende a atenção do público. Os personagens são cativantes, e o entrosamento deles entre si e com os adereços das cenas são ricos em detalhes; principalmente nas construções de personagens por meio de objetos, efeitos encantadores. Destaque também para as imagens de grande beleza com as sombrinhas. A sonoplastia é envolvente, dá ritmo ao espetáculo junto com as marcações precisas dos atores. O tema traz uma discussão sobre ser pai: desafios, alegrias, angústias, amor, etc. O enredo é simples, acontece, mas carece maior cuidado; falta tensão dramática, a fim de direcionar a atenção do espectador para a resolução de uma questão. No decorrer do espetáculo a novidade é constante, mas não há encadeamento de uma evolução dramatúrgica das cenas; mas não compromete o espetáculo, vale a pena assistir.

O trabalho realizado com seriedade por todos da Cia. do Abração fica evidente no espetáculo. O teatro do faz-de-conta, contou mais uma história... Fui acompanhado de quatro crianças; os pequenos saíram encantados e comentando sobre as cenas e dos personagens, é o que interessa!

Comentários

LETICIA disse…
Robson, obrigada por compartilhar seu olhar. Sabemos, não é de hoje, da luta por tentar criar espaços e obras significativas dirigidas às crianças. Mas, enquanto tivermos pessoas realmente comprometidas como você, sentiremos menos solitários e mais esperançosos em nossa missão.
O nosso último espetáculo, Os Paizinhos (assim chamado por nós), embora tenha nos encantado, carece, como todas as nossas obras, de algumas revisões.
Compartilhamos com você da falta de um conflito mais claro e instigante. Na verdade, o conflito existe. A busca por um pai que nos ajude a dar "um jeito" no mundo já é colocado no início do espetáculo. Mas, continuamos optando por recortar nossa dramaturgia em pequenas estórias. Isto, talvez, retire um pouco o ar de aventura. Não deixe tão instigante a narrativa. Temos tentado investigar como reverter esta rítmica. Mas, por outro lado, sabemos que oferecemos pequenas doses de liberdades e novidades em imagens para nosso espectador.
Simão Cunha disse…
Robson, que Legal seu texto. Adoro!
Sabe que essa questão sobre a dramaturgia está me fazendo pensar muito, acho que não só a mim, a Letícia mesmo já falou aí em cima, mas eu penso também nas variadas formas de se fazer teatro... me questiono... mas não tenho a resposta... As vezes lembro do que minha irmã e depois meu irmão falaram quando viram o espetáculo: "É poesia pura"...

...

rs
val Salles disse…
Essa realmente tem sido uma discussão recorrente por aqui e levada muito a sério também. Pesquisamos linguagem - a nossa linguagem - e acredito que as discussões hoje chegam bem perto de resoluções, ou melhor, de melhoramentos no que diz respeito a conflitos melhor estabelecidos e mostrados. Como a Le mesmo falou aí em cima, em todos os nossos espetáculos. A paixão por esse fazer é muito grande e pelos espetáculos, maior ainda!
Muito obrigado Robson, por suas palavras.

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