Reflexões 2 - A POÉTICA DO ABRAÇÃO

Por: Ricardo Leandro (29/03/07) - é ator, Licenciado em Teatro pela FAP. Faz parte do Núcleo de Pesquisa Teatral do ACT ( Arte da Comédia).


O evento realizado pela Cia do Abração ( Projeto de Investigação de Teatro para Crianças), merece no mínimo alguns comentários. Há espetáculos voltados para fora e outros voltados para dentro, para a introspecção.
Sem dúvida o repertório da mostra de teatro da Cia do Abração, levam os atores e público, a interiorizarem as belezas da poesia dentro da própria obra apresentada, ou seja, o espetáculo.
Os espetáculos apresentados pela companhia, anuncia que vem para ficar, vem para refletir sobre o espelho reverso da vida. Vem para dialogar com criança, dar conforto para suas vivências, dando lhes o que há de melhor na encenação/teatro e encenação/vida, sem cobrar muito por isso, sem deixar de olhar para a arte-educação, sem menosprezar, sem subestimar as nossas crianças.
Kazuo Ohono, fez “La Argentina”, com Buthô. Ele contava uma estória através de seu corpo, de sua respiração e sensibilidade. Fazia uma mulher, que nem a própria mulher poderia fazer, era um poeta do corpo, do espaço. A obra apresentada, tinha em cena um homem (Kazuo), vestido de mulher, um chapéu, uma rosa. Era poesia em cena, dita por um poeta da dança, Kazuo. E essa simplicidade, sensibilidade e poesia. Está também nos trabalhos do Abração. Não com buthô, mas com os objetos e atores. Poesia para um público infantil/adulto.
Os espetáculo mexe com nossas emoções. Pela sua beleza, musicalidade, presença dos objetos, presença cênica dos atores e pela encenação poética. É sem dúvida um grande presente para a escola e para o teatro. Vale a pena ressaltar também, que são espetáculos de pesquisa, pensado, refletido, de criação do ator, do diretor, da equipe. Todos deixam ali sua marca. Todos deixam ali, aquilo que os poetas deixam nas prateleiras, ou seja, seus livros com suas poesias.

O pensar teatro, é pensar no homem. É ele o agente da história, é ele que conduz o que é bem, o que é mal. E podemos escolher? Algumas vezes sim, outras não. Mas muitos ainda fazem pelo homem, muitos são os poetas do nosso tempo. Drummond dizia em um de seus poemas “ O tempo é ainda de fezes, maus poemas alucinações e espera, o tempo pobre, o poeta pobre”. Nós não queremos ser poetas pobres. Existe ainda coragem no coração de alguns poetas. Poetas que ouvem Drummond. Poetas que estão Abraçadinhos, em algum lugar deste país. Bem ali! Na rua Paulo Ildefonso Assunpção número 725.
Se alguma restrição tivéssemos a fazer seria a brevidade dos espetáculos mostrados, tão concisa quanto a vida nos parece.

Considerações sobre os espetáculos/mapeamento:

Estórias Brincantes de Muitas Mainhas:
O nome já surpreende, o que vem a ser mainhas, vem de mãe “mainha”, forma cultural do filho/a chamar a mãe, língua muito usada na região da Bahia, nordeste.
Dramaturgia: no texto existe uma certa musicalidade que permeia no decorrer da peça signos e sons, tanto no texto propriamente dito, como na estrutura de algumas falas, como por exemplo:
- Zoológico, lógico!
- Colheu, colheu, e se perdeu.
Encenação: a encenação é bem feliz, muito poética em todos os sentidos, deste a escolha da sonoplástia, passando por objetos de cena, atores e cenário. Existe uma relação entre ator e objeto que é fantástica, onde o ator transforma-se em objeto e o objeto em ator, os dois estão muito próximo um do outro, estão relacionados dentro da proposta cênica. A presença dos personagens compostos por velhos, torna a peça mais graciosa, com a presença dos supostos velhinhos. Surgindo assim o lúdico, a brincadeira. Eles parecem crianças que querem brincar de falar de suas, vidas, das coisas, que são buscadas através de suas lembranças, de suas memórias. Na cena do “chã”, a encenação acontece, marcado por uma coreografia, onde através de sons emitidos pelo próprio instrumento do ator (0 corpo) a cena acontece, existindo então uma musicalidade, e uma matemática para que ela funcione, e torne o espetáculo precioso. A relação das diferenças das mães, no contexto colocado, eqüivale, em falar de diferenças. E essas diferenças entre as pessoas é fundamental para a criança, em termos de convívio social. Além de que uma das mães é a mãe terra, conteúdo que retorna signos da mitologia ( Mãe Terra, Gaia). Os nomes dos personagens é um fato curioso, eu denomino de nomes “Tchecovs”, é uma bela homenagem a Anton Tchecov, dramaturgo do realismo, os personagens tem nomes russos. O surgimento da “Boneca” é surpreendente, a construção da boneca dentro do espetáculo, lembra muito Teatro de Revista, das chanchadas, feito muito por atrizes como Dercy Gonçalves. Lembra também Carmem Miranda, lembra Brasil, a nossa “Terra Brazilis”.
Pintou Estrelas no muro
E teve o céu ao alcance das mãos
Helena Kolody
O Trenzinho do Caipira:
Dramaturgia: a dramaturgia deste espetáculo é bem interessante, por trabalhar com o “Sentido”, tema muito complicado para ser comunidade as crianças. Mas neste caso, o espetáculo consegue atender através da encenação e desmembra e faz, com que o “Sentido”, venha a ser compreendido e possibilitar a sensibilidade da criança.
Encenação: existe vários elementos dentro da encenação deste espetáculo que devem ser discutidas, comentadas. Uma são os personagens, que são tipos brasileiros, como o malandro, a caipira, a bailarina, a menina, os meninos. Personagens que estão próximos das crianças, pelos seus jeitos (arquétipos) e idades.
No decorrer acontece várias cenas importantes para a formação da criança, como a cena do abraço. Atualmente é muito difícil ver pessoas se abraçando. Porque de fato isso é uma educação que deve ser passada, o que está sendo esquecido, e o espetáculo trazer isso em cena, reforça o lado da coletividade. Além de ser uma bela cena. A cena onde começa a criar música com instrumentos feitos de materiais recicláveis, possibilita o reaproveitamento dos materiais, além de mostrar que com uma lata é possível fazer um chocalho. Nesta cena a música é construída aos poucos, o que da para perceber de onde ela vem, surge, como começa. Outra cena de música interessante, é quando a musicalidade começa com a brincadeira da bola, e os atores usam as mãos e derrepente cria-se uma música. Para a criança isso é um presente, eles podem fazer música no seu próprio corpo. O surgimento da pipa em cena também é um elemento que aproxima o espetáculo para a escola, pelo seguinte fato, a pipa está no cotidiano de toda criança, e da comunidade, e dar ênfase a construção de uma pipa, é possibilitar o desenvolvimento da criança, e reforçar também um elemento que faz parte de uma de suas diversões e brincadeiras. Na cena das regiões, a encenação deixa claro as partes do Brasil (Região), de uma forma simples e precisa. O espetáculo também homenageia dois artistas importantes e que são paranaenses, Efigênia Rolin e Hélio Leites, Efigênia, faz arte com papéis de bala e seu trabalho já alcançou importantes exposições, já Hélio, criador de esculturas/objetos miniaturizados que assumem posições narrativas e simbólicas. E não poderia faltar a música de Villa - Lobos que permeia a todo momento o espetáculo, fazendo com que, atores e espectadores viagem através de um trem tanto na música como na encenação.
Sonho de Uma Noite de Verão:
Dramaturgia: o texto é de um dos poetas da dramaturgia universal William Shakespeare, que escreve brilhantemente não só está obra como todas de seu repertório. A dramaturgia também segue a proposta da criação da obra com adaptação. Ex.
- Se você não me obedecer, eu a colocarei numa caixa de sapato velha!
- Sapatinhos com chulé.
- Como é linda essa tua alcinha.
Referindo-se a um salto/alto, e uma bolsa de alça, que são usadas como objetos/personagens.
Encenação: a peça começa com uma música dos Beatles (Yesterday), é bem vinda na peça. É necessário que escolha-se um bom repertório de músicas para levar à escola. No momento em que os atores vem até a boca de cena, e, através de seus olhares, olhares de quem diz: Sejam bem vindos ao teatro! Aproxima a platéia para a obra. A adaptação que foi feita para a peça é muito interessante, é introduzido a personagem do próprio Shakespeare via telefone, os personagens ligam para o Senhor Shakespeare como é chamado por eles, para que ele resolva, de como eles devem contar a história, é uma idéia brilhante pela forma como é construída/encenada. Os objetos escolhidos para contar a história da peça, tem objetividade dentro da linguagem, pois os objetos são parecidos com os tipos dos personagens, assim como a encenação para defini-los como tais. Os objetos usados em cena, são meias, sapatos, talco, gravata e etc. O que torna o espetáculo muito poético, além da obra do próprio Shakespeare. O cenário é montado conforma mudanças de cena, existe um momento em que ele vira escada. A escada aqui nesta cena pode representar poder/nobreza, já que a peça se passa dentro e fora do palácio, outro momento importante é quando vira floresta, e a encenação passa boa parte dando ênfase da obra nesta cena, onde é abordado, aspectos dos espíritos da floresta, como fadas, tipos de duendes. Onde acontece o feitiço, presença do bem/mal. E para a criança os contos de fadas, é de fundamental importância para a sua leitura e compreensão da realidade. A realidade é contada através dessas histórias, o que diminui a insegurança e o medo. Além disso essa é uma cena bem Shakesperiana, pela forma como foi construído a floresta, com característica da época do gênio.
Um Mundo Debaixo do Meu Chapéu:
Nome bastante poético, o chapéu é um grande representante da elegância.
Além de que debaixo do meu chapéu existe sim um mundo, o meu cérebro fica exatamente naquela região, é através dele que projeta-se as nossas sensações, pois no sistema do Mesencéfalo (situado no cérebro) que tem funções como visão, audição, movimento do corpo e movimento dos olhos.
Dramaturgia: a dramaturgia também segue musicalidade pela forma como é escrito o texto para falar do poeta (Mudo). Além de estar trazendo para a comunidade/escola, um dos maiores gênios do cinema, que falava sempre das questões sociais, seja através de seus personagens, ou através de sua dramaturgia/texto/ações.
Encenação: são três atores que interpretam Carlitos. São cômicos com vivacidez, da o toque que Carlitos necessita para existir. Para falar do mundo de Carlitos são criadas esquetes de filmes. O cenário é peculiar são as cores do teatro preto/branco, além de que as malas que transforma-se em outras objetos e ambientes, são feito de material metálico, dialogando assim com o filme “ Tempos modernos” do Chaplin. E bem importante frisar sobre a relação que Chaplin tinha dentro da sua obra, ele falava da industrialização, da vinda das máquinas, do estado de urgência em que as coisas tinham que acontecer. E isso acontece até hoje, a indústria continua determinando os padrões, os usos e costumes. Colocando no mercado, muitas mercadorias para o consumidor. Além da rapidez como os produtos são substituídos. Isso já é um bom tema para ser discutido na sala de aula com os alunos.
A encenação especifica das cenas, o cômico, o riso, é bem inteligente. São usados também objetos tornando o espetáculo riquíssimo. Existe uma gravação, em que é perguntado para as crianças:- O que tem debaixo do seu chapéu? E as crianças respondem, muitas coisas que fazem parte de suas vivências, da relação que elas tem com o mundo. Dessa forma o espetáculo faz uma ponte entre, realidade/encenação, comunidade/teatro. A cena do almoço/jantar, os três personagens dividem tarefas, isso é o que a criança aprende na escola, em casa, na sociedade. Isso reforça a educação da criança em compreender o indivíduo na coletividade. Em outra cena um dos personagens usa um apontador para representar coisas e personagens, e isso é negado por outro personagem, mas um outro defende a sua imaginação/criação. E essa cena é uma das mais importantes para a educação das crianças na escola, elas costumam usar objetos para fazer a representação da realidade. E afirmar isso como positivo para a criança, desenvolverá o seu lado intelectual e criativo/construtivo.
"Não sois máquinas! Homens é o que sois!"
Charles Chaplin
Tropeço:
O espetáculo é de animação/bonecos. E é através de suas mãos que os atores interpretam duas velhas, com muita maestria, como se estivessem regendo uma orquestra, é uma grande magia, com muita técnica e presença cênica. O espetáculo é uma peça Becketiana, porque o texto é de Becket? Não. Porque os personagens são mendigos? Também, não. Mas porque a situação das duas personagens velhas/senhoras, são idênticas as situações de Estragon e Vladimir na peças “Esperando Godot”. Elas também estão ali a espera de algo, na lembrança do passado, e procurando recriar o vazio. Uma é chata, a outra mais divertida, vê esperança na vida. O cenário composto por velas, pequenos baús, o que dá um toque poético dentro do espetáculo que de pequeno se torna gigantesco. A ambientação/atmosfera, é bem intima, aconchegante. A estória é o dia-adia dessas duas velhinhas, que brigam, dançam, cantam, se beijam, se amam e se vai... É muito poético, sensível. É Becketiano, é bom!

É tudo bem marcado, preciso. No começo parece até um ritual, mas aos poucos vai desvendando-se, impressionando-se. As nossas mãos podem ser duas velhas, eu jamais tinha imaginado isso, que nossas mãos realmente, poder ser personagens, podem ter rostos, podem falar, podem representar o próprio homem, com toda as suas características.Quem é que nunca quis chamar a atenção, seja na escola, seja em casa, no meio social, isso é típico do homem, a solidão, o vazio, a vontade de ser visto, notado, amado, querido. As crianças se vêem neste espetáculo, os adultos também, mesmo sendo através do riso.
Que bom seria se a vida fosse um tropeço assim! As duas velhinhas que nos digam!

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